sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Sobre aquilo que nos estarrece e cala

Na última segunda-feira o corpo de uma menina de cinco anos foi encontrado na calçada, em Arraial do Cabo, cerca de 160 quilômetros do Rio de Janeiro. A perícia apontou sinais de violência e, ao que tudo indica, a garota foi abusada sexualmente e morreu sufocada por um saco plástico. A mãe da garota havia saído com ela para uma festa e quando voltou do banheiro, não encontrou mais a filha. Ninguém viu nada.
Na mesma semana, o caso mais divulgado era o da menina que dividiu uma cela com homens no Pará. O delegado que a manteve presa, alegou que a menina devia ter algum tipo de debilidade mental por não ter falado em nenhum momento que era menor de idade.
Nos dois casos percebemos a facilidade que é cometer um crime e corromper o sistema: a impunidade já se tornou perigosamente comum. No país de Renan Calheiros, fica fácil se desculpar, esconder, dar um “jeitinho”. Não sabemos ao certo quem pagará por esses e tantos outros crimes que vemos nos jornais todos os dias.
O pior disso tudo é que apenas nos indignamos com aquilo que vemos. E o que chega até a população é justamente aquilo que alguém tem interesse que tenhamos conhecimento. A tal da Agenda Setting, fruto de nosso jornalismo tão parcial e que nos manipula sem que possamos nos dar conta. Amanhã ninguém mais vai se lembrar das mulheres no Pará, dos apagões aéreos, de casos como o do menino João Hélio, de senadores que nos roubam...
Engana-se quem pensa que o que acontece no mundo se vê pela televisão, que para se informar, basta ler mais de um jornal, a revista do mês e discutir assuntos relevantes da semana no trabalho. A verdade está muito mais perto, escancarada nas portas de nossas casas, no mendigo que te pede esmola, na falta de troco do comércio, nas pessoas furando filas, no professor que falta a aula. Só não vê quem não quer.
Bastou a crise aérea ser divulgada para uma série de reportagens especiais serem veiculadas sobre o assunto. Na mesma época, algumas mulheres estavam lá no Pará sofrendo em celas masculinas, mas ainda não era conveniente falar sobre esse assunto. Agora, enquanto você lê este texto, tem várias crianças sofrendo abusos, mães perdendo filhos, jovens dirigindo embriagados, gente sem ter o que comer e políticos realizando alguns acordos que futuramente causarão algumas CPIs. Para quem viveu de perto qualquer uma dessas notícias a realidade não é a de estatísticas. São vidas em jogo. À população, resta esperar para saber quais assuntos estarão em voga para que ela cumpra depois o seu papel demonstrando a sua indignação, seja por meio de discussões, seja por movimentos de uma elite que se diz “cansada”. O jornalismo inventou um sistema que vende: nos entretém (muitas vezes chocando) com histórias da vida real, que ainda assim de alguma forma temos distância, mas pára no momento em que a realidade começa a se aproximar demais.

Comércio da Pesada 2: uma continuação de arrepiar

Tenho certeza absoluta que ao ler esse título, alguns filmes passaram pela sua cabeça, todos eles narrados pela emocionante voz das chamadas da sessão da tarde. Pois bem, falemos deste assunto tão revoltante. Não a sessão da tarde, embora às vezes possamos nos perguntar porque uma emissora como a Globo não é capaz de apresentar uma variação decente de filmes para passar em suas tardes. Natal chegando, já podemos nos preparar para assistir Macaulay Culkin estrelando em Esqueceram de Mim (Home Alone) ou uma de suas continuações, onde "uma criança muito esperta vai aprontar confusões que até Deus duvida!". Talvez, se dermos sorte, também poderemos acompanhar uma "aventura alucinante de dois jovens perdidos numa ilha no maior apuro", em A Lagoa Azul (The Blue Lagoon) ou De volta à Lagoa Azul (Return to the Blue Lagoon), que contam praticamente a mesma coisa. Ou ainda podemos ser premiados com "uma emocionante história de amor e paixão que vai além da morte", com Ghost - do outro lado da vida (Ghost).
Apesar de estarmos de saco cheio de ver esses filmes, não é o que mais me incomoda. Primeiramente, é chocante ver como os tradutores realizam mal e porcamente seu trabalho, colocando nos filmes nomes toscos e que ridicularizam as obras. É algo como transformar Ferris Bueller's Day Off em Curtindo a Vida Adoidado, ou Step Up em Ela Dança, Eu Danço, só porque o funk quase homônimo de Mc Leozinho estava no auge. Mas o pior aconteceu com o filme My Girl, que ganhou em português o nome de Meu Primeiro Amor. Ótimo. Lançaram a continuação, e como ficou a tradução? Meu Primeiro Amor - Parte 2, o que não faz o menor sentido para quem conhece a história e sabe que a personagem Vada se apaixona por dois garotos diferentes nos filmes. Seria melhor que arcassem com as conseqüências de um ridículo Meu Segundo Amor.
Outra coisa lamentável que ocorre no Brasil são os subtítulos completamente dispensáveis que se adicionam a longas que, em seu nome original, não apresentam nada. Para quê transformar um simples 1941 em 1941 - Uma guerra muito louca? É muita vontade de ver algo ser tratado pejorativamente. E não podemos deixar de falar do que a obsessão comercial faz com os diretores, roteiristas e produtores que só pensam em dinheiro e esquecem completamente a qualidade. Estou me referindo às continuações sem sentido que por vezes estragam clássicos como O Exorcista, Sexta-feira 13, Jogos Mortais, Todo Poderoso e outros tantos filmes que viram suas obras sendo sucateadas com as seqüências.
Será que a criatividade dos cineastas se esgotou? Quantos filmes terão que ter seus nomes manchados com continuações fajutas para que se perceba que isso não dá certo? Linda Blair, imortalizada como "a menina do Exorcista", chegou a atuar em uma paródia do próprio filme que a indicou ao Oscar. A Repossuída mostra claramente como os filmes são banalizados pelo comércio: o maior clássico do terror de todos os tempos se transformou numa comédia pastelão. Outro dia tive o desprazer de assistir Eu Sempre vou Saber o que Vocês fizeram no Verão Passado, que "fecha" a trilogia começada em Eu Sei. É tanta porcaria junta que só uma coisa me resta dizer a respeito do que se tem feito no cinema: é lamentável.

Serra abaixo

Minha avó sempre me disse que, quando passamos dos 20, os anos descem a serra voando e quando você percebe já está trintando. Ainda estou um pouco longe disso, mas, à beira dos 21, começo a lembrar de tudo que vivi e confesso: como o tempo passou rápido!
Parece que foi ontem que, prestes a fazer 18 anos, fui para Porto Seguro de excursão, longe dos olhos e dos cuidados de qualquer adulto. Sensação de liberdade descompromissada; só precisava me preocupar em administrar bem meu dinheiro com os passeios e com as bebidas. Depois veio a formatura: responsabilidade das grandes! Não é fácil organizar um acontecimento desses para mais de 300 pessoas, tanto que não soube dosar essa responsabilidade com as outras: estudo e até mesmo aproveitar a própria festa.
Vivendo e aprendendo! E por falar em aprender, não dá para esquecer a fase do cursinho. Todos deveriam passar por ela. Tudo se resume em duas palavras: crescimento e maturidade. São amizades novas, incertezas que colocam à prova sua vontade de conseguir e a necessidade de abrir mão de algumas coisas para se conseguir aquilo que deseja. É só nessa fase que muitos descobrem que a vida não é fácil, que ela é feita de escolhas e que “cada escolha é uma renúncia”, como já diziam nossos amigos do Charlie Brown Jr..
Vitória! Aí descobrimos que alguns sacrifícios valem a pena. Como é gratificante receber “parabéns, você passou no vestibular”! Melhor ainda é entrar nesse mundo totalmente novo que é a universidade, onde as amizades são diferentes, a forma de ver as coisas é diferente, enfim, uma chuva de novidades que nos adaptamos rapidamente e que ficamos até tristes quando pensamos que um dia ela vai acabar. Porque só universitário economiza no ônibus para compensar na cerveja, dá o nome de churrasco para uma festa sem carne, vai para a aula virado depois de uma festa e tira foto de “bundas”, em frente a um bar, sem vergonha daqueles que estão olhando. O universitário não tem medo de “fazer feio”. O universitário faz e acontece.
Fase boa essa! Mas é a época em que começamos a olhar mais para nós mesmos e pensar em nosso futuro. É a hora que bate aquele medo de não conseguir ser “gente grande” e assumir todas as responsabilidades que nos aguardam. Há um abismo enorme que separa o adulto seguro do que quer da criança com medo de dar o primeiro passo e cair, não ir adiante.
Se a serra tivesse descido mais um pouquinho, eu iria dizer que essa é a conhecida “crise da meia-idade”. Mas não. É aquela época do ano em que você, novamente, faz um balanço do que aconteceu, se lamenta por algumas coisas, fica satisfeito com outras e já começa a planejar o próximo ano. Acha que está ficando velho, que as coisas no seu tempo eram melhores e se gaba por ter boas histórias para contar para os netos. Mas como isso ainda está longe de acontecer, você desliga o computador, sai de casa e vai para a mesa de um bar. Afinal, filosofar também é coisa de universitário e você ainda precisa de histórias para contar, pois ainda tem muita serra pela frente.

Leave celebrities alone

O vídeo do adolescente emo que grita e chora pedindo que a mídia deixe Britney Spears em paz (http://www.youtube.com/watch?v=kHmvkRoEowc) pode parecer ridículo, mas ele tem o seu valor ideológico. O nível de perseguição da mídia atrás das celebridades tem ficado cada vez mais absurdo. Nenhuma ausência de calcinha (http://popdish.com/wp-content/uploads/2006/12/blog_1203_1.jpg), nenhum tapinha na pantera (http://www.celebritysmackblog.com/wp-content/uploads/2007/08/lilyallen09834945.jpg), nenhuma fantasia sexual filmada (http://www.smh.com.au/ffximage/paris_hilton_narrowweb__300x191,2.jpg) passa despercebida pelos repórteres de revistas de fofoca.
As matérias sobre escânadalos envolvendo artistas têm superado em muito o número de comentários e críticas a respeito de suas respectivas formas de arte. É interessante pensar como viveriam personalidades polêmicas como Billie Holiday e Janis Joplin nos dias de hoje. Será que uma ex-prostituta, cantora talentosa, conseguiria alcançar o reconhecimento de Billie Holiday? Ou seus escândalos pessoais encobririam seu talento como vem acontecendo com Amy Winehouse?
A imprensa brasileira ainda é mais discreta quanto a esse lado da vida das celebridades. E com certeza não é porque os artistas brasileiros são mais comportados.

Violência urbana?


A violência que contaminou os grandes centros e amedronta a toda essa população, agora se espalha pelas pequenas cidades em proporções assustadoras. Assaltos à mão armada, investigações pela Polícia Federal, assassinatos, tráfico, lavagem de dinheiro e emboscadas para policiais. Cenário de grandes centros? Não mais...
Na madrugada de terça-feira (27), uma viatura da Polícia Militar de Campos Gerais, no sul de Minas Gerais, foi atingida por tiros ao ser chamada para atender uma ocorrência de furto em um bairro afastado da cidade. Segundo os militares, eles foram surpreendidos ao encontrar a estrada bloqueada com galhos de árvores. Os três policiais que estavam no carro não ficaram feridos, no entanto, o crime chocou a cidade de cerca de 26 mil habitantes.
E esse não é o único caso assustador da pequena cidade. A população ainda reclama de falta de segurança na zona rural, onde assaltos de maquinários, produtos agrícolas e animais são freqüentes, e na cidade, onde cada vez mais comércios e casas sofrem com o mesmo problema e, não raramente, à mão armada.
Que a violência não mais escolhe suas vítimas, já se sabe. Que a situação está inaceitável, mais ainda. Que algo precisa ser feito para mudar essa situação caótica, é o que todos pensam. Mas o que fazer? Como agir? Se nos grandes centros a polícia treinada e acostumanda a lidar com casos assim, infelizmente não consegue soluções efetivas, que chances existem para policiais de pequenas cidades, com menos treinamentos e menor infra-estrutura?
Por outro lado, toda essa realidade me leva a uma outra reflexão. Se nas cidades grandes o fato de existirem muitas pessoas para poucas oportunidades, grandes desigualdades sociais e pessoas vivendo em condições sub humanas favorecem o caos, qual a explicação para tamanha violência nessas cidades pequenas, onde o estudo público ainda funciona, as lavouras ainda conseguem acolher toda a mão de obra disponível na cidade e a força católica – e portanto solidária – ainda permanece viva?
O que parece é que, algumas pessoas, passaram a achar mais fácil e digno roubar o do outro do que conseguir o seu. Há uma total inversão de valores. Não é mais a polícia quem faz emboscada para bandido: são bandidos quem armam contra os policiais. Hoje em dia é legal ser da “turma do mal” enquanto é careta fazer o bem e agir de acordo com os princípios morais e legais.
Situações preocupantes e alarmantes, visto que ser um “fora da lei” hoje significa chegar ao sucesso primeiro, não receber nenhuma punição pelos atos cometidos e ainda ser popular na comunidade que domina. A única coisa a se dizer é o óbvio: se nada for feito para melhorar as condições em que estamos vivendo, o futuro será ainda pior.

Reflexões Natalinas

O final do ano já chegou e as pessoas estão correndo para as lojas com o intuito de fazer as compras de Natal. Todos esperam o tão famoso décimo terceiro para fazer seus investimentos. O comércio de Juiz de Fora já anunciou que fará um horário especial a partir do dia oito de novembro.
É engraçado o movimento frenético nas principais ruas da cidade, as horas extras das lojas e o desânimo dos vendedores. Eles não disfarçam em nenhum momento que estão ali por obrigação e porque também querem seu décimo terceiro. Os donos de loja fazem maratonas malucas e obrigam os empregados a quase duplicar as horas de trabalho.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Silas Batista, pelo menos deu uma boa notícia aos empregados: disse que parte do serviço desse período será pago em espécie e a outra compensada em folgas no carnaval e no dia do Comerciário.
Outra coisa interessante é a atividade da polícia. Durante o ano todo, no centro da cidade acontecem as mais estranhas ocorrências, mas nos meses finais, a guarnição manda mais soldados às ruas para garantir o faturamento das lojas e dos supermercados.
A prefeitura - alvo de tantas denúncias - espalha nas periferias enormes placas para destacar as providências que foram tomadas durante o ano sendo que, nesse período, as ruas ficaram esburacadas, muitas pessoas se rebelaram contrárias aos aumentos abusivos do preço das passagens de ônibus, contra a insegurança da cidade e permaneceram indignadas com a ineficiência dos burocratas que trabalham neste município.
Ninguém ainda se lembra das manifestações de estudantes, dos atropelamentos, da falta de médicos no Pronto Socorro, dos assaltos, das brigas de gangues, das rebeliões na penitenciária... Existem ainda as reclamações feitas ao Governo Federal. Quem está comentando sobre o projeto Bolsa Família? Quem ridiculariza as falas metafóricas do presidente? Onde estão aqueles que serão responsáveis por votar a prorrogação da CPMF?
Poucos se recordam que esse é um momento de mudanças, uma hora de repensar os erros e tentar ser diferente no ano que virá. Essa é a oportunidade de buscar coisas novas e de tentar mudar. Não é uma provocação, mas um empenho que todos devem ter como meta no ano que vem.
Pode ser que depois de sair de 2007 as coisas mudem e a gente consiga ser premiado com um Brasil mais justo. Ano que vem a gente discute mais porque agora tenho que comprar a boneca da Mariazinha, a bola do Joãozinho, a toalha de mesa da D. Joana, o brinco da Estela...

Eu Te Amo Não Diz Tudo

Um dos grandes problemas da internet como fonte de informações é o caráter duvidoso do conteúdo que circula na rede. Eu, por exemplo, estava procurando uma mensagem de aniversário para enviar a um amigo e acabei encontrando uma crônica, supostamente escrita por Arnaldo Jabor, chamada “Eu te amo não diz tudo”. Claro que não posso garantir que seja mesmo ele o autor da crônica, mas digo sem dúvidas que poderia ser.
A princípio parece que a crônica fala sobre relações de casais. É quase como discutir a relação lendo Arnaldo Jabor. O fato é que “Eu te amo não diz tudo” nos alerta para a inutilidade de um discurso vazio de atitudes. “Mas ouvir que é amado é uma coisa, sentir-se amado é outra, uma diferença de quilômetros.”. Esse é o grande mote da crônica: a diferença entre palavras de amor e atitudes de amor.
Embora eu ache interessantíssimo discutir relações de amor, esse texto me chamou a atenção para uma posição política muito brasileira. Eu amo o meu país, do mesmo modo que eu odeio corrupção não diz tudo. A sociedade brasileira tem cada vez mais discursos vazios de atitudes. O político é ladrão, corrupto e não tem um só brasileiro que já não tenha feito um discurso inflamado, uma única vez que seja, contra um escândalo de corrupção ou outro.
A alta cúpula do governo esteve envolvida até o pescoço em fraudes e irregularidades. Daí vêm todos os discursos contra corrupção e imoralidades administrativas. Mas e as atitudes de indignação? Onde ficam? E eu não estou falando de atitudes contra corruptos, e sim contra a corrupção. Por que os políticos não desviariam tanto dinheiro, se eles fazem parte de uma sociedade que não consegue enfrentar uma simples fila sem cometer alguma fraude?
Com a reabertura do Restaurante Universitário as filas para compras de tickets estavam quilométricas. Os universitários, “elite intelectual” do país, não foram capazes de enfrentar a fila sem fraude e sem desrespeito aos direitos dos colegas. Imagina se fossem políticos? Mas o pior de tudo é a falta de um olhar atento para a situação: Você está achando que é esperto porque levou vantagem sobre quem estava na sua frente? Antes de se achar muito bom lembre-se: O Brasil está cheio de espertos melhores que você passando na frente dos seus direitos de cidadãos todos os dias. Enfim, antes de dizer eu te amo, ame.